Seja Bem-Vindo!

Aqui se fala sobre música, sobre artistas e sobre bandas da cena nacional e internacional, de hoje e de sempre!

Já se falou aqui?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Música e Meio Ambiente


Tema de alta relevância política, a música também tem cuidado, aqui e ali, de passar mensagens de preocupação com o meio ambiente. Como muitos dos compositores e cantores também são formadores de opinião, acabam sendo partícipes de construções musicais que mostram a transformação do planeta, a voracidade do homem sobre os recursos naturais, a poluição crescente e desenfreada das cidades e a guerra eterna que é travada, todos os dias, da evolução humana contra a preservação ambiental.
Desse modo, a música, ainda que de maneira poética, serve de alerta para a diuturna tarefa humana (esquecida) de preservação da terra para os nossos filhos e netos.

Pra começar, Lenine e Lula Queiroga (em Labiata) expressam preocupação com as manchas de óleo das praias e dos rios... talvez motivados pela sempre presente possibilidade de que aconteça desastres do tipo no Porto do Recife ou no Capibaribe. “Mancha” é o nome da música:

“A mancha vem comendo pela beira
O óleo já tomou a cabeceira do rio
E avança
A mancha que vazou do casco do navio
Colando as asas da ave praieira
A mancha vem vindo
Vem mais rápido que lancha
Afogando peixe, encalhando prancha
A mancha que mancha,
Que mancha de óleo e vergonha
Que mancha a jangada, que mancha a areia”

Outra música muito bem construída é “Absurdo” de Vanessa da Mata, que observa, de maneira abismada, do quanto havia de belo, oferecido gratuitamente pela natureza, e o quanto à capacidade de destruição humana transforma as paisagens, desertifica, consume o meio ambiente.É uma ode à ignorância humana:

"Havia tanto pra lhe contar
A natureza
Mudava a forma o estado e o lugar
Era absurdo
Havia tanto pra lhe mostrar
Era tão belo
Mas olhe agora o estrago em que está
(...)
Destruição é reflexo do humano
Se a ambição desumana o Ser
Essa imagem infértil do deserto
Nunca pensei que chegasse aqui
(...)
Havia tanto pra respirar
Era tão fino
Naqueles rios a gente banhava
Desmatam tudo e reclamam do tempo
Que ironia conflitante ser
Desequilíbrio que alimenta as pragas
Alterado grão, alterado pão
Sujamos rios, dependemos das águas
Tanto faz os meios violentos
Luxúria é ética do perverso vivo
Morto por dinheiro
Cores, tantas cores
Tais belezas
Foram-se
Versos e estrelas
Tantas fadas que eu não vi
Falsos bens, progresso?
Com a mãe, ingratidão
Deram o galinheiro
Pra raposa vigiar"

Dessa turma mais nova, ainda temos uma música que, além de ser uma construção excepcional (já tive oportunidade de falar sobre ela) também tem uma temática ambientalista denuncista, sobretudo na descrição da ação nefasta do homem sobre a natureza, que ignora a necessidade de preservação do meio para as futuras gerações. Chama-se “Tá”:

"Pra bom entendedor, meia palavra bas-
Eu vou denunciar a sua ação nefas-
Você amarga o mar, desflora a flores-
Por onde você passa, o ar você empes-
Não tem medida a sua ação imediatis-
Não tem limite o seu sonho consumis-
Você deixou na mata uma ferida expos-
Você descora as cores dos corais na cos-
Você aquece a Terra e enriquece à cus-
Do roubo, do futuro e da beleza augus-

Mas do que vale tal riqueza? Grande bos-
Parece que de neto seu você não gos-
Você decreta a morte, a vida indevis-
Você declara guerra à paz por mais bem quis-
Não há em toda fauna um animal tão bes-
Mas já tem gente vendo que você não pres-
Não vou dizer seu nome porque me desgas-
Pra bom entendedor, meia palavra bas-"

Também Beto Guedes, há bem mais tempo, em 1998 cantou, de maneira bem poética e talvez menos denuncista, a necessidade de uma preocupação global acerca da questão ambiental:

“Terra, és o mais bonito dos planetas
Tão te maltratando por dinheiro, tu que és a nave nossa irmã
Canta, leva tua vida em harmonia
E nos alimenta com teus frutos, tu que és do homem a maçã
Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois
Prá melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora para merecer quem vem depois”

Mas não é só. Ainda que a temática, politicamente, seja cíclica, já tínhamos o Rei Roberto Carlos, em 1989, Cantando “Amazônia”, clamando pela proteção do então chamado “pulmão do mundo”, no disco de mesmo nome:

“Sangue verde derramado
O solo manchado
Feridas na Selva
A lei do machado
Avalanches de desatinos
Numa ambição desmedida
Absurdos contra os destinos
De tantas fontes de vida
Quanta falta de juízo
Tolices fatais
Quem desmata, mata
Não sabe o que faz
Como dormir e sonhar
Quando a fumaça no ar
Arde nos olhos de quem pode ver”

E ainda antes, em 1983, o taperoense Vital Farias canta a Amazônia. Tempo em que nem existia pauta de discussão sobre o tema no Brasil. Vital foi diversas vezes ainda na década de 70, 80 e 90 àquela Região com o intuito de conhecer o projeto “Jari” (para extração em larga escala de celulose) e já encontra grileiro, posseiro, índio e branco lutando uns contra os outros, matando a floresta:

"Toda mata tem caipora para a mata vigiar
veio caipora de fora para a mata definhar
e trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira
e trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar
eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá

No lugar que havia mata, hoje há perseguição
grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé de Nata tá de prova, naquele lugar tem cova
gente enterrada no chão:

Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
roubou seu lugar."

E por fim, e para comprovar que a sensibilidade sobre questões ambientais já povoava a preocupação de gênios de todos os estilos, O “Xote Ecológico” do Poeta de Exú, no final da década de 80 já antevia a degradação ambiental provocada pela poluição, engolindo o verde da mata, matando os peixes e a própria terra.

Vaticina (ainda que de maneira indireta) também Gonzagão, que a questão ambiental faz parte de um sistema extremamente perigoso, pois mata não só os recursos ambientais, mas também as pessoas que se envolvem diretamente com tais questões de preservação ambiental(como também em Vital). Até hoje, inclusive – Nada mais atual!:

"Não posso respirar, não posso mais nadar
A terra está morrendo, não dá mais pra plantar
Se planta não nasce se nasce não dá
Até pinga da boa é difícil de encontrar
Cadê a flor que estava aqui?
Poluição comeu.
E o peixe que é do mar?
Poluição comeu
E o verde onde que está ?
Poluição comeu
Nem o Chico Mendes sobreviveu"

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vamos nos Preparar!!! Rock in Rio 2011!!!


Apenas para reproduzir aqui o link do Rock in Rio 2011.

O evento já confirmou 6 atrações, dentre as quais Red Hot, Snow Patrol, Metallica e Sepultura.

Começou bem!!!

Abraço!

http://www.rockinrio.com.br/rock-in-rio-2011-tem-seis-atracoes-confirmadas/

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Uma letra - O quereres - Caetano Veloso



Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em ti é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

Discos da Minha Vida - Tragic Kingdom - No Doubt


Quem vai escutar esse disco esperando encontrar mais sons como o de “Don’t Speak”, não acha nada parecido... de fato, no disco “Tragic Kingdon”, do No Doubt, essa música, que tocava direto nas rádios lá pelos idos de 1995/96 é completamente diferente . É uma baladinha romântica que aparece no meio de um disco cheio de Punk Rock, Reggae e Ska, mas também até elementos Disco, com Gwen Stefann (uma loira louca que disse que pirava quando estava no palco e olhava pra baixo e via o tanto de garota que, como ela, tacava tanta tinta no cabelo que eles estavam caindo...) com uma voz meio de bêbada, como quem canta com um abuso, mas com uma tonalidade incrível, meio rouca algumas vezes, outras gritando feito louca.

Aliás, quem não conhecia a banda, a julgar pela capa do disco, não se pode esperar que seja exatamente um disco romântico: uma árvore seca, frutas podres, moscas e um campo completamente desertificado, dando conta de um “reino trágico” realmente.
Mas olhando de perto, muitas das músicas têm letras românticas, mesmo que a letra venha acompanhada com uma batida forte de rock, completamente diferente da que don’t speak apresenta (que dá até pra dançar de rostinho colado). E também, nas letras, verifica-se a dor de alguém que foi abandonado, que está puto da vida, alguém que acusa o outro, que vai se vingar, que tentou de tudo, que quer acabar com o que está vivendo...

O disco da banda californiana, é de 1995 e é também, sem nenhuma dúvida, daqueles que salvaria do Titanic, porque mistura, além dessas tendências que falei acima, elementos circenses, com a batida de caixa e trombones, trompetes, piano, Cítaras, muita bateria e a marcação sempre presente de guitarras, sobretudo quando tende ao Ska.

É disco para ser ouvido toda hora. De bom humor dá vontade de dançar. De mal humor dá vontade de gritar as letras que são, algumas vezes, furiosas.
Lembro também que (novamente) quem me apresentou à banda foi meu grande amigo Breno, e ouvíamos muito durante a faculdade. Hoje, tenho sempre à mão para escutar no carro. É ótimo para dirigir.

Destaco, entre todas, “Excuse-me Mr.”(Punk Rock pesado), “Just a Girl”, “Different People”, “Sixteen” (que emenda de um jeito absurdo em “Sunday Morning” – que dá vontade de sair pulando, dançando reggae...), “You can do it” (por causa de uma batida disco, muito diferente...) e “World Go ‘round”.

É disco que vale a pena ouvir do começo ao fim, por causa de ritmos que se alternam mesmo dentro da mesma faixa, por causa da voz marcante de Gwen, e de letras muito bem construídas, fáceis, mas profundas, falando de amor, de vida, de agonia, de busca de força, de juventude transviada...

Estaria salvo de qualquer tsunami, na minha opinião. Vale muito a pena escutar.

Los Hermanos - Recife - 15 de Outubro de 2010


Dessa vez não tem foto. Não tem foto porque simplesmente não tinha condições de se chegar na frente do palco. Los Hermanos fizeram uma apresentação histórica, emocionante e apoteótica, para dizer o mínimo. E eu estava lá. Eu e os meus hermanos, junto com uma galera agradabilíssima.

Como resolveram fazer apenas dois shows no nordeste, Recife não poderia ficar de fora, tendo em vista que foi verdadeiramente lá, durante o Abril Pro Rock que a banda teve, no mesmo lugar – Centro de Convenções – em que se apresentaram neste dia 15, a certeza de que a carreira da banda tomava um rumo que nem eles mesmos imaginavam. Se era uma homenagem à cidade por causa disso, muito maior a homenagem que Recife fez, desde muito antes de começar o show, à banda.

Qualquer música que era entoada por um pequeno grupo, logo estava sendo cantada por toda a audiência. E de forma ensurdecedora. E foram várias antes da banda entrar no palco. Emocionante. Seguidamente, “O vencedor” (que virou meio hino da banda) foi cantada antes que os barbudos entrassem...

Quando a banda entrou, com duas horas de atraso – motivado por uma desorganização absurda na entrada do espetáculo, que tinha uma fila enorme para receber os ingressos de quem tinha comprado pela internet, Rodrigo Amarante olhou pra platéia e pediu paciência por causa do aperto. Era muita gente, muita mesmo. Não tinha como sair do lugar e, quem saísse, não conseguia mais voltar.

Mesmo o som estando bom (fora umas falhas pontuais no meio do show...), os caras inspirados, tinha hora que a platéia definitivamente abafava a possibilidade de ouvir qualquer coisa de som que vinha do palco. O show estava sendo feito da platéia para o palco. Marcelo Camelo, parou, na terceira música é disse: “Cara, vocês são foda! Vocês são foda!”. E Recife é mesmo. 18 mil pessoas feito sardinhas em uma lata, cantando emocionadas.

Deu pra perceber que Rodrigo Amarante está mais louco do que nunca e que Marcelo Camelo está bem forte, parece nem lembrar mais aquele magro esguio do começo da banda. Mas é certo o toque de Midas do primeiro na musicalidade da banda e a poesia rasgada de romantismo do segundo. Medina leva um som que compõe com a guitarras dos dois primeiros e Barba, que não acompanha a qualidade sonora dos seus colegas, faz a cozinha de maneira básica.

O setlist contou com todas as top da banda, entrelaçando os três últimos discos, somando-se “Pierrot”, do primeiro. Jogaram confetes em "Todo Carnaval tem seu Fim" e terminaram com “A flor”, com um povo gritando enlouquecido, e palavras de Camelo, dizendo estar sem palavras...

Uma hora e quarenta e cinco de muito som, de um delírio, provando que a banda teria tudo, se quisesse, para retornar ao trabalho junta, porque, segundo eles mesmos, ainda continuam jogando baralho juntos... E dá uma tristeza enorme ver aquele povo todo (eu também, com meus hermanos também...) tem que procurar coisas diferentes pra substituir o lugar que estaria reservado para os próximos discos da banda. Saiu todo mundo alegre pelo que viu e triste pelo que não vai ver... Nem vontade de ficar pra ver a outra bandinha tocando deu.

Fomos todos embora, com a sensação de que teremos que esperar (por quanto tempo?) novamente, que eles abusem de estarem sozinhos e queiram, de novo, contemplar seu público com seu retorno ou mesmo com uma outra apresentação como esta, apenas para deixar mais viva ainda a sensação de que ninguém tomará – não que eu conheça, por enquanto – o seus lugares.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Discos da Minha Vida - Calango - Skank


Esse aqui é outro disco dos primeiros que comprei em CD, se bem me lembro, lá nos idos de 1995 (o disco é de 1994), quando então praticamente metade do disco já era tocada direto nas rádios da cidade (e de todo país).

Amolação, Jackie Tequila, Esmola, A Cerca, É Proibido Fumar, Pacato Cidadão, Te ver... todas tocaram absurdamente nas rádios, nas festas, nos bares, nas boates, e o Skank estourou no Brasil.

O nome do disco, "Calango" faz referência a um tipo de desafio de cancioneiros caipiras sobre um mesmo tema, como acontece em "A cerca", como se fosse um mote das músicas dos violeiros.

O disco, que vendeu mais de um milhão de cópias e que tem o Lelo na capa (que tem o jeitão de fantasia de carnaval mesmo - em comemoração, inclusive, pelo título no futebol em 1994) é, ao mesmo tempo que um marco na história do próprio Skank, porque definitivamente projetou o grupo no cenário nacional (porque vendeu mais de 4 vezes o que o primeiro disco) é também, singular na própria história musical do Skank, porque apesar do primeiro disco possuir algumas músicas que têm a batida bem dancehall jamaicano (característica marcante no Calango), que algumas vezes lembra Jimmy Cliff e até o UB40, parece que foi completamente esquecida no "Samba Poconé" já dois anos depois. E nunca mais. Há inclusive quem radicalizou a dizer que foi o único disco bom do Skank, o que é, na minha opinião, um grande exagero.

Não que o Skank não tenha refeito as suas próprias concepções e tendências musicais - que continuam, diga-se de passagem, ótimas nas letras de Samuel e do sempre presente Chico Amaral - mas de fato nada foi feito que se pareça com as batidas envolventes do Calango. Muito metal, batidas de reggae, ska, sintetizadores, programação eletrônica misturados com uma guitarra de levada caracteristicamente brasileira.

Nas letras, o disco todo é recheado de muito bom humor, misturando situações amorosas com momentos vexatórios (transformados em versos humorísticos), como em "Amolação":

Deus lá de cima sabe muito bem
Qual a minha sina: o que que me convém
Bicho do mato ela veio comigo
Teve ninho, carinho, broa, abrigo
Labutei na roça, labutei no milharal
Labutei passando bem
Labutei passando mei mal
Bruma no cerebro dela de repente
Brus tão brusca, brus bruscamente

Ou principalmente em "A cerca":

Tu cerca a terra, tu cerca até o mundo
Então cerca tua filha, toda noite aqui no fundo
Pois te conto um segredo
Cê não conta pra ninguém
Andam vendo tua mulher
Com o dono do armazém
Maledicência, eu já tó acostumado
Até dizem que o senhor é incapacitado
Eu tomo chuva, tomo ar puro de manhã
Minha saúde é de ferro, pergunte pra sua irmã!

Mas vai também (e o tema é sempre muito bem trabalhado pelo grupo em todos os discos) falar de amor, quando Samuel pede: "me dá um beijo, porque o beijo é uma reza pro marujo que se preza..." ou então quando diz que "te ver e não te querer é como esperar o prato e não salivar; Sentir apertar o sapato e não descalçar; É ver alguém feliz de fato sem alguém pra amar; É como procurar no mato estrela do mar..."

Também vai o grupo no social, ainda que de forma bem humorada, falar da tragi-comédia da miséria brasileira em "Pacato Cidadão", "Estivador" e "Esmola", onde se ouve que

"Eu tô cansado, meu bom, de dar esmola
Essa quota miserável da avareza
Se o pais não for pra cada um
Pode estar certo
Não vai ser nenhum"

e diz até que é necessário:

"Abolir a escravidão do caboclo brasileiro
Numa mão educação, na outra dinheiro." (Pacato Cidadão)

Personagens também são marcantes na discografia do grupo. Nesse disco, tem o misterioso "Sam" e, pricipalmente (a música mais executada do álbum) "Jackie Tequila", uma menina muito louca que vai no Funk, vai no Baião, vai no Reggae e que enlouquece o contador da estória, que resume a vida de Jackie numa estrofe que é cantada por todo mundo, nas rodas de violão e nos shows do skank, onde quer que ele toque, em duas notinhas, num reggae muito legal:

"Jackie foi nascer numa cabana em Noa Noa
Sol do Taiti na pele, nowboah
Seu pai cruzou o mar, duas filhas na canoa
Côco pra beber e leite de leoa
Jackie é uma menina tão bonita que enjoa
Enjôo de vertigem, viagem de avião
Hálito de virgem, dois olhos de amêndoa
Vaca, cadela, macaca e gazela
Linda toda, toda linda ela
Toda beleza se reconhece nela
Jackie Tequila, coca-cola e água
Égua, língua, mingua minha mágoa."

Comprei o disco, como falei, lá em 1995, mas perdi nas minhas idas e vindas pra João Pessoa, comprei outro dia, lá nas Americanas, novamente, bem baratinho. É disco que pode ser tocado a qualquer hora, em qualquer lugar, porque empolga seja lá quem estiver ouvido. E de lambuja, ainda traz o Rei, na voz do Samuel, fazendo certa apologia, em "É proibido fumar", música que inclusive entrou para um projeto de Frejat para canções de Roberto interpretadas por outros artistas.

Esse é o calango. Brasileiro como o bicho e como a cultura do país. Um disco singular que mistura tendências jamaicanas que se encaixaram com o jeitão brasileiro de fazer música desse grupo mineiro que acertou em cheio na escolha do repertório e de como executá-lo com perfeição, agregando os valores da música brasileira a elementos eletrônicos e que resultou num dos melhores discos brasileiros da Música Popular que conheço.

Uma letra - Alma Nua - Vander Lee


Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"Construções" diferentes...


Outro dia, enquanto ouvia "Formato mínimo" do Skank (aliás num disco muito bom dessa banda que não canso de escutar, sobretudo pelo que os integrantes da banda conseguem escrever) me lembrei que aquela idéia de construir os versos terminando sempre com proparoxítonas não era exatamente original: fazia lembrar automaticamente "Construção" de Chico.

E, são, guardadas as devidas proporções do que Samuel Rosa ainda tem que crescer para chegar a Chico, temos duas idéias expostas de maneira genial e que, coincidentemente, falam de relação amorosa: O amor de Chico que sucumbe frente a uma rotina que gradativamente mata (pelo príncipe, pródigo, bêbado, tráfego, náufrago, flácidas...) e o amor de Samuel, interpretado de maneira diferente pelos que se amavam (ele, que procurava a próxima, oferecia ácido, procurava álibis, sucumbia ao pânico e procurava uma transa típica - o amor em seu formato mínimo e ela, que procurava um príncipe, reparava nas vírgulas, flutuava lépida e descansava lívida, despertou-se tímida, feita do desejo a vítima.

Pelo amor de Chico:

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Pelo de Samuel:

Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido
Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida

Mas também me lembrei de outras construções interessantes no que diz respeito à fuga das formas usuais de fazer a letra das canções.

De fato, "Cadê teu suin" do Los Hermanos (Marcelo Camelo)é genial, a última palavra do verso se emenda com o outro verso, como eu nunca vi em outra letra:

Cadê teu repi
quem é teu padrin
onde é que tu to
Cadê teu suin?
guitarra não po
desista mole
quem é que te indi
cadê teu suin?
com que sobreno
melhor ir sain
dou nem mais minu
to nem mais
Ainda tem a cora
gentinha atrevi
da cá sua vi
da cá seu suin
guilhotina?

De outra maneira também bem peculiar e que eu nunca tinha visto, é a composição de Pedro Luis e Mariana Aydar em "tá?", música que denuncia de maneira poética a degradação do planete pela ação humana. A música em si é baseada num jargão que diz que "pra bom entendedor meia palavra basta". Apegado no jargão (e também no refrão que é esse também), todos os versos terminam com a última palavra pela metade (se meia palavra basta, então...) e a coisa ficou completamente inovadora e incrivelmente simples, ao mesmo tempo que impensável:

Pra bom entendedor, meia palavra bas-
Eu vou denunciar a sua ação nefas-
Você amarga o mar, desflora a flores-
Por onde você passa, o ar você empes-
Não tem medida a sua ação imediatis-
Não tem limite o seu sonho consumis-
Você deixou na mata uma ferida expos-
Você descora as cores dos corais na cos-
Você aquece a Terra e enriquece à cus-
Do roubo do futuro e da beleza augus-
Mas do que vale tal riqueza? Grande bos-
Parece que de neto seu você não gos-
Você decreta a morte, a vida indevis
Você declara guerra à paz por mais bem quis-
Não há em toda fauna, um animal tão bes-
Mas já tem gente vendo que você não pres-
Não vou dizer seu nome porque me desgas-
Pra bom entendedor, meia palavra bas-

E, lembrei, por mais recente, de uma música do disco novo do Zeca Baleiro, "Débora", onde além dos recursos de combinar as proparoxítonas no final dos versos, o maranhense também faz uso de aliterações, reforçando o som consonantal de algumas palavras (sempre com muito bom humor, como é característica do Zeca):

Débora, és uma víbora
Sai da minha aba, vagaba
Para com esse mantra, pilantra
Chega de caô, ô , ô
Tu não me engana, mana
Sei que fui um trouxa, poxa
Mas agora chega, nêga
Cínica, fui bater na clínica
Fiquei no osso, moço
Melhor que te afaste, traste
Nem vem que não tem, neném
Sei que fui babaca paca
Vou picar a mula, chula
Cansei de ser besta, basta

São construções que não são muito comuns de aparecer não, e quando acontecem, acabam por chamar a atenção de maneira peculiar, sobretudo porque o modo de pensar desses compositores tem sempre que acontecer também de modo completamente inovador, que faz variar não só como os versos são feitos, mas também como a melodia da música tem que ser montada para contemplar as potencialidades de quem assim escreve.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Uma letra - Balada do Cachorro Louco - Lenine


Eu não alimento nada duvidoso
Eu não dou de comer a cachorro raivoso
Eu não morro de raiva
Eu não mordo no nervo dormente

Eu posso até não achar o seu coração
E talvez esquecer o porquê da missão
Que me faz nessa hora aqui presente

E se a minha balada na hora h
Atirar para o alvo cegamente
Ela é pontiaguda
Ela tem direção
Ela fere rente
Ela é surda, ela é muda
A minha bala, ela fere rente

Eu não alimento nenhuma ilusão
Eu não sou como o meu semelhante
Eu não quero entender
Não preciso entender sua mente

Sou somente uma alma em tentação
Em rota de colisão
Deslocada, estranha e aqui presente

E se a minha balada na hora então
Errar o alvo na minha frente
Ela é cega, ela é burra
Ela é explosão
Ela fere rente
Ela vai, ela fica
A minha bala ela fere rente

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Zeca Baleiro - Garden Hotel - Campina Grande


“Se a bebida tivesse liberada aqui dentro, a galera ia subir no palco e colocar o Zeca nos braços!”

Foi o que eu comentei com o amigo Jobson, sentado bem na minha frente, logo na primeira música (“meu amor minha flor minha menina”). Foi quase automático. O auditório do centro de convenções do Garden Hotel se transformou numa verdadeira apoteose. E foi um sambódromo algumas vezes, em outras um festejo com as matracas maranhenses ou um forró em outras partes, um terreiro de candomblé em outras, e um festival de rock ou reggae, ainda em outras. E tudo promovido pelo mesmo Zeca Baleiro.

E tudo foi assim do começo ao fim. Uma grande farra. Se é sempre muito bom sentir quando a platéia está encantada com o que está sendo apresentado no palco, com dedicação, com força, com profissionalismo e com prazer, é muito melhor quando é possível perceber essa dedicação de maneira tão simples como foi no show desse sábado, dia 24 de julho, aqui em Campina Grande.

De fato, Zeca Baleiro é um maranhense ilustre que eu tive oportunidade de ver a primeira vez ao vivo lá, no Maranhão, no teatro Arthur Azevedo, colonial, lindo. Já conhecia alguma das suas músicas, mas a partir daí tudo foi muito mais importante pra mim.

Junto com Lenine, acho que são os dois mais expressivos nomes da música popular masculina contemporânea brasileira. De fato, Zeca, como o pernambucano, tem uma capacidade de criação que é renovada a cada disco, o que também fica muito claro nos seus shows, sempre renovados, mas sempre com músicas impressionantes, com um ritmo que vai da embolada de coco paraibano, às matracas da cultura maranhense, ao forró, ao samba, ao folk, ao lirismo, ao cancioneiro, às baladas.

Junte-se a tudo isso um enorme senso de humor, que faz de suas canções completamente singulares, utilizando termos incomuns, outras vezes até chulos mesmo, coisas bem intrigantes para as poesias e que só ele mesmo para fazer. No novo disco manda a maluca “se danar” (Você não liga pra mim), diz que “esse camarada se androginou” (Bola Dividida), “vontade que dá de mandar o cara tomar naquele lugar...”(Toca Raul) ou então diz (em “Débora”), que foi “babaca paca” e “... vou pra Cancun, teu 171 não me pega mais...” e também diz que “... a prainha degringolou, ta cheio de gringo lá”.
Além disso, diferenciando-se dos outros discos, no atual é bem notável uma presença marcante dos metais em várias músicas, além de umas vinhetas que se espalham por todo o disco (ou os dois discos, já que “O coração do Homem Bomba” tem dois volumes).

Durante o show, Babylon, Meu amor minha flor minha menina, Alma Nova, Salão de Beleza, Alma não tem cor, Lenha, Você não liga pra mim, Bandeira, Samba do Aproach, Toca Raul, Proibida pra Mim, Versos Perdidos, Bienal, Telegrama, Eu despedi o meu patrão, Você é má, indo ainda em Vital Farias (com Margarida) e Geraldo Azevedo (Bicho de Sete cabeças) e por aí foi se desenrolando o show de maneira espetacular.
Algumas faltas foram sentidas, pelo menos por mim, como Minha casa, Comigo, Meu amor meu bem me ame, Disritmia, Dezembros, Stephen Fry, entre outras. Mas mesmo assim, seria uma escolha bem difícil frente ao setlist do show. Impecável.

E tudo isso só mostra a maturidade de um artista que se renova a cada obra, que se dedica à composições com letras interessantes, criativas, bem-humoradas, que cativam a todos, aliadas à musicalidade que mistura influências de todo o nordeste brasileiro, numa levada dançante e envolvente algumas vezes, num romantismo falado de maneira comum em outras, em histórias de humor em outras ainda, o que mostra que já tomou definitivamente o seu lugar no cenário nacional, sendo referência cultural para o Brasil inteiro.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Discos da Minha Vida - João Bosco Acústico MTV


Este é um álbum de um artista que é simplesmente um virtuose, que no sentido de Aurélio Buarque de Holanda quer dizer malabarista, dominando em alta dificuldade as possibilidades infinitas de um violão e dos ritmos.
Já conhecia de muito o artista, sempre tocado na radiola lá em casa, quando eu ainda era bem pequeno. O Bêbado e o equilibrista na voz de Elis é canção marcante para minha infância. Compôs com Vinícius de Moraes, mas seu maior parceiro musical é Aldir Blanc, com quem compôs mais de 100 músicas.
Há quem diga (e isso não é muito incomum) que a técnica de João Bosco é tão impressionante que chega a ser exagerado, tamanha a habilidade que tem com o violão, fazendo o ouvinte pensar que sempre há um outro violão (ou talvez até dois) acompanhando-o.
O disco em questão é de 1992, mas somente comecei a ouvi-lo quando estava na faculdade, por causa de um colega de sala (e depois de República) chamado Breno. Ele (e depois pude ver o quanto os amigos músicos dele de São Luis adoravam - e tocavam - João Bosco) tinha um CD dessa gravação na qual o que impressiona é a crueza musical do disco: É só voz e violão.
De fato, por mais que os Acústicos, sobretudo a partir da década de 90 pugnavam pela limpeza de som, uso dos instrumentos "desplugados", não me lembro de um outro disco feito unicamente pela voz do intérprete e sua viola.
Sempre que escuto (e escuto sempre) o disco me sobressalta a impressão de suas grandes características (do disco e certamente do compositor): do ponto de vista das letras, um sincretismo religioso desse mineiro que une os búzios, o xangô e Jesus para descrever relações amorosas, de desejos humanos, peripécias de marginaizinhos do morro em busca da vida do crime ou as desgraças mundanas na luta eterna entre bem e mal, amor e ódio (ou saudade) e assim por diante.
A segunda impressão é a capacidade absurda do ritmista, que acompanha as batidas do violão com onomatopéias que só ele mesmo é capaz de fazer, além das pancadas cheias de suingue que executa no próprio violão. Age como se fosse um batuqueiro de escola de samba acompanhando a harmonia de sua voz e do pinho.
A última impressão é que não acho muito fácil de se achar tamanha capacidade de um compositor como acontece nas letras desse disco.
Algumas são de uma inteligência tão simples que chega a parecer brincadeira, como em Tiro de Misericórdia:

"Nas escadas da Penha
Penou no cotoco de vela
Velou a doideira da chama
Chamou o seu anjo-de-guarda
Guardou o remorso num canto
Cantou a mentira da nega
Negou o ciúme que mata
Matou o amigo de ala.
Tá lá"

e depois ele diz:

"Tá lá o amigo de ala
O amigo de ala
Matou o ciúme que mata
Negou a mentira da nêga
Cantou o remorso num canto
Guardou o seu anjo-de-guarda
Chamou a doideira da chama
Velou no cotoco da vela
Penou nas Escadas da Penha"

E nas outras - e aí o disco parece dividido entre a beleza das letras de amor absoluto e essa ligação de raízes quilombolas que permeia não só esse mas vários outros discos do cantor e compositor - é uma Odisséia de puro êxtase. Papel Machê, Jade, Memória da Pele e Corsário estão, para mim, entre as músicas mais belas da Música Brasileira. Por todas, Memória da Pele, adicionando também o link para o youtube - não é do disco, mas é uma execução parecida:

"Eu já esqueci você
Tento crer
Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer
Sugo sempre
Busco sempre
A sonhar em vão
Cor vermelha carne da sua boca, coração
Eu já esqueci você, tento crer
Seu nome, sua cara, seu jeito, seu odor
Sua casa, sua cama
Sua carne, seu suor
Eu pertenço a raça da pedra dura
Quando enfim juro que esqueci
Quem se lembra de você em mim
Em mim
Não sou eu sofro e sei
Não sou eu finjo que não sei, não sou eu
Sonho bocas que murmuram
Tranço em pernas que procuram enfim
Não sou eu sofro e sei
Quem se lembra de você em mim
Eu sei, eu sei
Bate é na memória da minha pele
Bate é no sangue que bombeia
Na minha veia
Bate é no champanhe que borbulhava
Na sua taça e que borbulha agora na taça da minha cabeça
Eu já esqueci você, tento crer
Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer
Sugo sempre
Busco sempre a sonhar em vão
Cor vermelha, carne da sua boca, coração"

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Uma letra - Amor de Índio - Beto Guedes


Tudo que move é sagrado
e remove as montanhas com todo o cuidado, meu amor.

Enquanto a chama arder, todo dia te ver passar
tudo viver a teu lado
com o arco da promessa
no azul pintado pra durar.

Abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu, o pedido que se pensou

O destino que se cumpriu de sentir seu calor e ser todo
Todo dia é de viver para ser o que for e ser tudo


Sim, todo amor é sagrado
e o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor.

A massa que faz o pão vale a luz do seu suor
Lembra que o sono é sagrado
e alimenta de horizontes
o tempo acordado de viver.

No inverno te proteger, no verão sair pra pescar
no outono te conhecer, primavera poder gostar

No estio me derreter pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu de sentir seu calor e ser todo

terça-feira, 6 de julho de 2010

Flash Mob e música

Um movimento bem legal que tem acontecido ultimamente de maneira bem intensa (e que pode ser facilmente conferido pela internet) é o chamado Flash Mob.

A expressão parece fazer logo alusão a um tipo de mobilização que acontece de maneira rápida, ou mesmo, de certa forma, inesperada.

De fato, os primeiros movimentos desse tipo estão ligados à eventos ocorridos em locais públicos, em praças, dentro de certos vagões de metrô ou de trem, em lojas de departamento, onde um líder espalhava algumas instruções sobre o que deveria ser feito (normalmente uma atitude padrão, como ficar como estátua (como nesse aqui, acontecido na França - http://www.youtube.com/watch?v=qtUNj2BNTsU&feature=related), se mover como um zumbi, ou se sentar, ou sair de casa para certo lugar apenas com a parte de cima da roupa - há registros de problemas com polícia, claro) e a partir daí, com uso de meio eletrônico (e-mail, mensagens de celular), todos que tinham sido atingidos por essa rede de informações (sem ao menos se conhecerem nem saber quem iria aparecer no local programado) apareciam, seguiam as instruções e, depois de realizada a tarefa, iam embora de maneira tão "casual" quanto chegaram.

Claro que para a música isso tem um valor muito legal. Tenho visto algumas manifestações muito interessantes em relação à artistas pops.

São flash mobs promovidos, portanto, por fãs.

Assim, tais eventos têm acontecido ao redor de todo o mundo, reunindo, algumas vezes, quantidades improváveis de pessoas que querem sair de casa e simplesmente participar de 4 ou 5 minutos de integração provocada pela música e, logo depois, seguirem seu caminho natural. Acontecem nos intervalos de almoço, em finais de semana, sem muito esforço para que seja um dia especial ou qualquer coisa assim.

Um dos primeiros que eu vi foi o flash mob da música sound of music, que aconteceu numa estação de trem, na Bélgica (http://www.youtube.com/watch?v=7EYAUazLI9k).
Mas tem muitos outros, como Beyoncè - single ladies(http://www.youtube.com/watch?v=de8oaegzb_0&feature=related) e para Michael Jackson, claro, motivado, sobretudo, pela sua morte (como em http://www.youtube.com/watch?v=T-G5c2qxwlY&feature=related).
Têm acontecido também no Brasil algumas iniciativas, que também podem ser vistas no Youtube, como a homenagem feita à Michael Jackson também (http://www.youtube.com/watch?v=-Jy8Afsk3ug).

Mas nada comparado com o que aconteceu com o aniversário do programa da Oprah em sua 24ª Temporada. O Grupo Black Eyed Peas convidou, por e-mail, a 800 fãs para, em Chicago, sem a apresentadora saber, realizarem uma coreografia que, pouco antes da apresentação do grupo, seria passada por esses fãs a quem estivesse no local, via e-mail ou vídeo de celular, Podcast, seja lá o que quisessem e fosse possível usar. Resultado: uma coreografia feita por 21 mil pessoas que impressiona.

E, de fato, procurando um pouquinho, são vários os vídeos que existem na rede, lançados pelos fãs do BEP já preparando para o grandioso evento. Segue o link de como tudo aconteceu. Impressiona mesmo, ainda que se possa dizer (não, é, Sevé?) que isso só podia ser coisa de americano. Mas que é legal o que a música pode proporcionar, isso é. Abraço a todos.
(http://www.youtube.com/watch?v=GqfHkjyC8aM&feature=related

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Uma letra - Babylon - Zeca Baleiro



Baby!
I'm so alone
Vamos pra Babylon!
Viver a pão-de-ló
E möet chandon
Vamos pra Babylon!
Vamos pra Babylon!...

Gozar!
Sem se preocupar com amanhã
Vamos pra Babylon
Baby! Baby! Babylon!...

Comprar o que houver
Au revoir ralé
Finesse s'il vous plait
Mon dieu je t'aime glamour
Manhattan by night
Passear de iate
Nos mares do pacífico sul...

Baby!
I'm alive like
A Rolling Stone
Vamos pra Babylon
Vida é um souvenir
Made in Hong Kong
Vamos pra Babylon!
Vamos pra Babylon!...

Vem ser feliz
Ao lado deste bon vivant
Vamos pra Babylon
Baby! Baby! Babylon!...

De tudo provar
Champanhe, caviar
Scotch, escargot, rayban
Bye, bye miserê
Kaya now to me
O céu seja aqui
Minha religião é o prazer...

Não tenho dinheiro
Pra pagar a minha yoga
Não tenho dinheiro
Pra bancar a minha droga
Eu não tenho renda
Pra descolar a merenda
Cansei de ser duro
Vou botar minh'alma à venda...

Eu não tenho grana
Pra sair com o meu broto
Eu não compro roupa
Por isso que eu ando roto
Nada vem de graça
Nem o pão, nem a cachaça
Quero ser o caçador
Ando cansado de ser caça...

Não tenho dinheiro
Pra pagar a minha yoga
Não tenho dinheiro
Pra bancar a minha droga
Eu não tenho renda
Pra descolar a merenda
Cansei de ser duro
Vou botar minh'alma à venda...

Eu não tenho grana
Pra sair com o meu broto
Eu não compro roupa
Por isso que eu ando roto
Nada vem de graça
Nem o pão, nem a cachaça
Quero ser o caçador
Ando cansado de ser caça...

Ai, morena! Viver é bom
Esquece as penas
Vem morar comigo
Em Babylon...(4x)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Tumulto! Oia Rappa!



De todas as bandas que gosto, acho que nenhuma delas tem tanta energia em um palco quanto O Rappa.

Aliás, essa não é a única (boa) característica dessa banda que já acompanho desde seu segundo disco, em 1996. Aliás, boa parte das músicas desse disco acabaram virando hits obrigatórios da banda em qualquer dos seus shows, como A Feira, Vapor Barato (Waly Salomão e Jards Macalé, Ilê Ayê, Hey Joe, Pescador de Ilusões,Homem Bomba e Tumulto (ainda que nem sempre eles consigam tocar todas nos shows).

De fato, além da força imcomparável que a banda tem ao vivo, onde a gente quase sente que aquele será o último show da banda, de tanto que Falcão se entrega à galera, o Rappa tem um estilo que é inconfundível e que funde uma profusão intensa de gêneros musicais, que vai do rock, reggae, ao samba, ao funk, ao rap, hip-hop e mpb.
Aliás, as participações especiais nos seus discos e os compositores que aparecem para ajudar a banda são os mais diversificados possíveis: Lenine, Pedro Luis, Bezerra da Silva, Marcelo D2, Sepultura, Asia Dub Foundation... e por aí vai.

Por outro lado, retratam a vida dura das favelas e dos morros com uma poesia que usa elementos do dia-a-dia da vida da comunidade de forma figurativa e de maneira muito engenhosa ("no cerol que traz a vida pra baixo"), fazendo denúncias sociais, falando da miséria que todos vemos ao redor e ficamos inertes, do cinismo do uso das drogas pela elite brasileira, dos movimentos de milícia nas favelas, do desemprego, do sub-emprego, da violência da polícia e do Estado (como em "Tumulto" ou na denuncista "Tribunal de Rua"), do sincretismo religioso do povo favelado (Cristo e Oxalá) e da fé desse próprio povo que luta contra tudo isso para ir à frente.

Em 2003, o Rappa lançou "O silêncio que precede o esporro" e apesar do seu segundo disco "Rappa Mundi", que falei logo acima, ter alavancado a banda e trazido sucessos que nunca deixarão de compor um setlist obrigatório do Rappa em seus shows, acho que "O silêncio que precede o esporro" é onde a banda mostra sua maturidade.

Já completamente refeita da perda do grande Yuka (que até então compunha com Falcão grande parte dos sucessos da banda), e com a entrada de Lobato na batera, a banda mostra (sobretudo no seu DVD) que está completamente pronta para ter o seu lugar, definitivamente, no rol das grandes bandas brasileiras.

Aliás, o DVD é montado em três partes: na primeira, a banda aparece na "toca do bandido", em um show para um grupo pequeno de fãs, pendurados por toda parte e se apertando para conseguir ver a banda. Na parte do meio do DVD, algumas entrevistas e na parte final um show apoteótico no Olimpo, onde a banda começa com a música "O salto" que, para mim, é uma das mais fortes de todas elas e aí passa por todos os discos, mostrando que são "banda" mesmo e que gostam de fazer a coisa ao vivo, sem muita frescura.

Já vi o Rappa nem sei exatamente quantas vezes. Mas lembro a primeira: no Ceará Music, em 2000, eu acho, junto com Sevé, porque Bruno já tinha se afastado, perguntando "como é que se gosta daquilo...".

E daí algumas vezes em João Pessoa, algumas outras em Recife, mas todas sempre com a mesma energia - Uma banda que deixa o público completamente alucinado, cheio de energia, cantando suas músicas, vibrando com as letras, com as palavras de ordem e os palavrões sempre instigantes de Falcão. Acho que junto com Los Hermanos, Skank e Nação, são as melhores desse tempo.

Seu novo disco, Sete Vezes, é outra pérola. Apesar de só duas músicas estarem tocando por aí (Monstro Invisível e Súplica Cearense), ele todo é muito bem feito, do começo ao fim, vale muito a pena dar uma olhada.

Esse é o rappa. É tumulto. E venha ver, porque dentro do tumulto pode estar você!

E só para constar, a foto foi feita por mim, no show do Rappa, em Julho de 2008 em João Pessoa. Ainda dá pra ver o lobato e o Xandão na foto, além do Falcão, claro.

Uma Letra - Condicional - Rodrigo Amarante


Quis nunca te perder
Tanto que demais
Via em tudo o céu
Fiz de tudo o cais
Dei-te pra ancorar
Doces deletérios

Eu quis ter os pés no chão
Tanto eu abri mão
Que hoje eu entendi
Sonho não se dá
É botão de flor
O sabor de fel
É de cortar.

Eu sei é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
O que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu, muito bem

Quis nunca te ganhar
Tanto que forjei
Asas nos teus pés
Ondas pra levar
Deixo desvendar
Todos os mistérios

Sei, tanto te soltei
Que você me quis
Em todo lugar
Lia em cada olhar
Quanta intenção
Eu vivia preso

Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais?
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei mais

Os dias que eu me vejo só
São dias que eu me encontro mais
E mesmo assim eu sei tão bem
existe alguém pra me libertar.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Nação com Fome de Tudo!


Outro dia, como quem não quer nada, resolvi pesquisar como andava a vida da Nação Zumbi, sobretudo depois da morte de seu primeiro líder e fundador Chico Science, que se esborrachou num poste voltando de Olinda no carnaval de 1997. Nessa época eu ia para os carnavais de Olinda com Bruno e Sevé, e já ouvia muito a Nação em “Da lama ao caos” e “Afrociberdelia”, que também tocava muito nas ladeiras com os blocos de Maracatu e nas casas da cidade (na época em que ainda era permitido que as casas tivessem sons enormes) e também porque morava com uma galera que curtia o som (Jack Neto) e sempre tocávamos quando nos reuníamos para uma violada (lembro muito de Vlader fazendo o som e Jack entoando “Monólogo ao pé do ouvido” e emendando em “Banditismo por uma questão de classe”).

Da lama ao caos é um marco na música moderna popular brasileira. Junto com Mundo Livre S/A, a Nação cria o movimento Mangue Beat, uma mistura completamente nova na música brasileira, juntando musicalmente o som pesado de guitarras do punk-rock, batidas de funk levadas pelas alfaias, introduzindo definitivamente o maracatu pernambucano nas letras político-sociais nas quais se cantava a miséria recifense, o aumento do abismo social (“o de cima sobre e o de baixo desce”) o cidadão empurrado para o banditismo, os movimentos e revoltas históricas, a vida e a visão dos que vivem do mangue em relação à cidade, sobretudo no hit que é o nome do primeiro disco (verdadeira hino do manguebeat), e mesmo visões cibernéticas de um mundo futurista, idéias que sempre povoaram a cabeça da Nação, principalmente do próprio Chico, como em “Computadores fazem arte”.

Já no segundo disco, Afrociberdelia, acabam fazendo um disco ainda mais ligado ao movimento manguebeat, se afastando um pouco da limpeza sonora encontrada por Liminha para a produção do primeiro disco da banda, mas mesmo assim produziram peças raras da banda, como em “Macô” e “Manguetown”, realizando ainda a regravação muito boa de “Maracatu Atômico”.

Mas esses discos são incontestáveis. Costumo dizer que, se Chico não tivesse morrido, era possível que o Recife declarasse se transformar em Monarquia e ele seria o próprio Rei. Depois da sua morte, certamente que uma incógnita passou pela cabeça dos fãs: “será que o grupo caminhará com vida própria sem seu maior idealizador?”

O disco CSNZ lançado no ano seguinte, como homenagem à Chico não se desincumbiu de desfazer tal dúvida. Ainda trazia o fundador da Nação cantando músicas ao vivo e também, no disco 2 (chamado de “A noite”) era composto por músicas remixadas. Jorge Du Peixe aparecia, pela primeira vez, também nos vocais da Nação.

Verdadeiramente, acho que a banda retoma seu ritmo em 2002, com um disco que leva apenas o nome de "Nação Zumbi".

O disco todo é uma boa mostra do que tem sido a banda a partir daí. Com Jorge Du Peixe (vocalista desde a morte de Chico) muito mais seguro no vocal e nas programações, a banda abre o disco com uma música que hoje é obrigatória nos shows: Blunt of Judah. Também encontra uma mensagem musical das que acho a maior pancada do NZ: Meu maracatu pesa uma tonelada. Essa música tem um riff de guitarra e uma batida tão pesada das alfaias que fico repetindo seguidamente enquanto dirijo ou mesmo escutando no fone de ouvido no celular. É impressionante a força com que os tambores ecoam na cabeça.

Futura, em 2005 é um disco de afirmação contínua da banda, mas é no DVD “Propagando” aos dez anos de existência da banda, que se percebe a densidade e força que a banda tomou. Preparado de maneira completamente delicada, o DVD é todo gravado de uma só vez, em uma só noite, mostrando tudo o que a banda evoluiu nos seus anos de existência.

E depois disso tudo, na minha mísera opinião, os caras conseguiram fazer um disco que, para mim, é o melhor de todos: Fome de Tudo, em 2007.

Fiquei pensando que a mesma sensação de impacto que sofri quando conheci o primeiro trabalho da Nação, senti, novamente, com Fome de Tudo. Vai se escutando cada faixa num crescendo que não tem fim. Aliás, tem, e a gente fica querendo mais.

De fato, depois de 15 anos de existência, parece que esse disco tem a mesma essência do primeiro, com inovações que só enriquecem a história da banda.
Se fosse para escolher uma faixa (no disco anterior seria “Meu Maracatu pesa uma Tonelada”), eu indicaria, para começar, a última: Escutar “No Olimpo” é uma coisa de louco, uma pancada que invade com uma marcação absurda, com guitarra fuderosa e um baixo que, inclusive, está em todo o disco de maneira vibrante. Músicas como Infeste, Bossa Nostra (que abre o disco), Nascedouro, Inferno (onde se encontra, curiosamente, Céu cantando) e a faixa que dá nome ao disco, são verdadeiras pérolas desse último trabalho irretocável da Nação.

Tem samba, tem frevo, baião, tem muito maracatu, tem groove, tem punk, tem rock, tem letras inteligentes e muitíssimo bem construídas, cheias ainda das idéias que povoaram a cabeça de Chico, mas já com autenticidade e cara próprias, de uma banda madura, tranqüila no caminho que trilha e com lugar consolidado no cenário musical brasileiro, tão carente de música de qualidade.

E só pra ter uma idéia da inventividade da criação da Nação nesse disco, vai aí uma amostra da letra de "Infeste".

Eu venho de todas as partes
Por todas as vias
Trazendo as vontades de todas as crias
Eu sou
Uma couraça pros dias de fúria
Nervos de aço pra cada aventura
Corpo fechado até sua altura
Estou

Costas quentes
Dentes acesos
Olhos de espelho
Cabeça de leão
Lançando o perigo na ponta do enfeite
Estica o caminho quem manda no chão

quinta-feira, 20 de maio de 2010

"ABBA The Show" - Recife


Em meio a muita desconfiança, informações equivocadas, outras incompletas, fui ver o show do Abba (ou melhor, "ABBA the show")e logo que entrei em Recife, parando no Chevrolet Hall para comprar os ingressos, eu, minha mãe, minha irmã Deyna e meu primo Marquinhos descobrimos que, sem dúvida, assistiríamos a uma banda cover do ABBA, chamada de Waterloo (nome da primeira música do ABBA a atingir o topo das paradas na Inglaterra), que depois descobri que desde 1996 faz tais apresentações, tendo conseguido, inclusive, licença dos integrantes originais do ABBA, Bjorn, Benny, Agnetha e Frida.
Minha irmã Deyna e eu já tínhamos comentado que, pela importância, a coisa estaria mais para a apresentação da Sinfônica de Londres e que deveria acontecer uma participação dos integrantes do ABBA... mas não foi exatamente o que aconteceu.
De fato, ao entrarmos no show, eu já começava a me questionar onde ficaria a orquestra, porque o palco, apesar de seus 1000 metros quadrados, não estava exatamente preparado para receber uma orquestra.
E eu estava certo: a Orquestra de Londres se resumia a cinco integrantes (todas mulheres) que estavam a postos no canto esquerdo-fundo do palco, atrás das duas backin' vocals, para tocar violinos e violoncelo. Alguma decepção.
E quando o show começou percebemos realmente que estávamos numa apresentação de homenagem ao ABBA original: tudo estava preparado para tanto - as roupas anos 70, a iluminação, os elementos que apareciam nos telões quando as músicas eram tocadas... era realmente um show cover.
Só que existem covers e covers. E se, por um acaso do destino alguém pensou, por algum momento, em pedir seu dinheiro de volta ao descobrir que se tratava de uma banda cover, tal intenção desapareceu nos primeiros minutos da apresentação, onde se descobre a perfeição com que o espetáculo foi construído.
Depois descobri que o quarteto ganhou um prêmio em 1999 numa TV sueca por ser o melhor cover de banda. Aí vi que a coisa já tem bastante tempo e prestígio, tendo lotado casas por toda a Europa e Estados Unidos. São descritos pelo fã clube oficial do ABBA como "o melhor ABBA desde ABBA".
A evolução toda do show é conduzida, basicamente, pelas crooners Camilla Hedren e Katja Nord, esta última, encarna tão fielmente Agnetta que é difícil não entrar de cabeça na fantasia que é a coisa toda toda. A voz é idêntica e a de Camilla é tão potente e marcante quanto era a de Frida. Impressiona todo mundo. Trocam de roupa durante o show, trazendo mais elementos visuais que, durante o show são muito bem montados. Os outros dois componentes terminam de compor o quarteto também extremamente bem travestidos - um tocando guitarra base e o outro no teclado.
O show vai num crescendo, passando por todas as músicas que o público espera, com direito a Coral com umas 30 crianças para cantar "I have a dream" e finalizar com "Thank you for the music", depois de enlouquecer o público em êxtase com "Dancing Queen", que foi, inclusive, pedido pelo público.

Minha infância e adolescência foi muito marcada pelos hits de ABBA e o disco "ABBA GOLD" (1992), com aquela capa preta com letras douradas e músicas que sempre povoaram minha bagagem musical, como Fernando, The Winner takes it all, Mamma Mia, Dancing Queen, Money Money Money, Knowing Me Knowing You.

Mesmo estando desfeita desde 1984, a banda ainda vende mais de 3 milhões de discos por ano, o musical Mamma Mia tem exibição permanente em várias cidades na Europa e apresentações como as que assisti certamente ainda atrairão muitas pessoas pelo mundo todo, apenas com a intenção de reviver (como realmente se revive) músicas de um grupo tão peculiar, de elementos muitas vezes bastante simples em letras e melodias, mas que faz o público se transportar para dentro de uma aura de prazer, de paz, de harmonia e felicidade intensa.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Discos da Minha Vida - Tracy Chapman - Tracy Chapman


Eram idos de 1991 ou 92, eu então com meus 13 ou 14 anos quando meu pai comprou o LP (Long Play para os muitos que nem sabem nem o que é isso) do que eu julguei, como quase todo mundo naquela época, ser um ótimo cantor.
Pois é, cantor mesmo. Somente depois é que soube que aquele era o álbum de estréia dessa norte-americana que, então, já contava com quatro Grammy Awards por um dos mais bem sucedidos álbuns de música contemporânea da década de 80 para cá.
O disco foi primeiramente conhecido aqui no Brasil através da música "Baby can I hold You" que estava na novela Vale Tudo (aquela da Odete Roitman e na qual Reginaldo Faria no final dá uma singela "banana" para o Brasil de dentro de um helicóptero...) e a partir daí era obrigatória em toda rádio de norte a sul do país e, é claro, nos "assustados", junto com "Yes" e "Take my breath away".
Mas essa talvez seja a música menos elaborada do disco.
Na realidade, essa artista, que tem influência no R&B, jazz, música folk norte americana e blues construiu um disco que muito além de baladinhas como a que citei acima, está muito mais ligado à construções políticas do que propriamente ao romantismo puro e simples.
De fato, ela mesma, por sua influência no meio acadêmico norte-americano (de onde verdadeiramente surgiu, fazendo shows com seu violão) e exatamente por suas canções de cunho político, acabou se integrando à Anistia Internacional, participando inclusive de turnês promovendo os Direitos Humanos depois desse primeiro trabalho.
Na verdade, não fosse por "Baby can I hold You" encravada no meio do disco, ele estaria quase dividido em duas partes (como efetivamente acontece no LP), a primeira ativista e, a segunda, romântica.
"Talkin' Bout a Revolution" abre o disco com um violão suave, mas logo a batida pesada acompanha a letra que já nasce falando de uma revolução sussurrada, na surdina, mas que finalmente "estava fazendo as coisas mudarem...", apontando para o que acontecia nas filas da assistência social, dos desempregados, e que as pessoas pobres estariam prestes a pegar o que lhes pertence.
"Fast Car" foi das músicas também mais executadas do disco, no mundo inteiro, e também é uma música que fala do sonho de liberdade, de poder escolher seus próprios caminhos e de ser alguém. Um som bem folk, com muito violão e ótima de cantar no carro, correndo...
"Across the Lines" é também música tipicamente de cunho político, com uma bateria de vassouras de metal e um piano perfeito, denunciando discriminações nos guetos dos Estados Unidos e mundo afora, assim como faz "Behind the Wall", cantada à capela, mostrando a indiferença em relação à violência nas periferias.
Aparentemente muito além de seu tempo, em "Mountais O'things" Tracy começa desejando mais ou menos como faz Zé Rodrix em "Casa no Campo", mas já está completamente antenada no consumo desenfreado (e fútil) e pede para que todos "renunciem a tudo que for obtido através da exploração humana". Bem vanguardista para os anos 90, que foi bem morno com relação à políticas humanitárias. Tudo isso numa levada completamente africana com flautas e bongôs fantásticos.
Se fosse escolher uma música para representar o total do disco, essa música seria "She's Got Her Ticket". A letra fala de alguém que quer andar por aí, sem medo de nada, sem poder ser parada por nada ou por ninguém. Mas o que impressiona, além da música muito bem construída, é a levada folk, com um solo de guitarra que é completamente limpo e marcante, como a própria música. A guitarra vai "cantando" e Tracy cantando "And she'll fly, fly, fly..." e uma bateria seca acompanhando tudo. É ouvir e se encantar.
Chegando ao final, Tracy pergunta (em "Why) "por que os projéteis são chamados de guardiães da paz" ainda em meio à influência da Guerra Fria, mantendo o sentido político do disco e entra nas músicas verdadeiramente românticas (depois de Baby can I hold You).
"For My Lover" fala de um amor sacrificado, disposto a tudo, que tudo suporta, que tudo espera - pois é. É quase uma Epístola moderna de Tracy Chapman aos Coríntios... com uma guitarra pesada folk.
Daí parte para perguntar "If not now, then when" em relação a um amor impaciente e se descontrola completamente em "For You", dizendo não ser dona de suas próprias emoções e fechando um disco com uma batida de violão muito agradável.

Por tudo isso, por essa mistura completamente moderna, aliado à elementos africanos e letras bem construídas levadas por uma voz absolutamente inconfundível, que agrega tantos estilos, esse seria, certamente, um dos discos que fariam parte da minha Arca de Noé, caso desse tempo de me preocupar com tais sobrevivências culturais.
Ainda roda comigo, no carro, em MP3 e ainda tenho em casa o LP dessa artista que, apesar de depois do primeiro espetacular álbum, ter saído um pouco da mídia, ainda continua, até hoje, sendo muito prestigiada em seus discos e excursões.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Abril Pro-Rock 2010


Ainda em excursão pelas terras do Capibaribe, no sábado, depois do show de Simply Red, no dia 17 de abril (sábado) fui dar uma conferida no Abril Pro-Rock, evento que sempre revela boas bandas no cenário nacional.
A cena é bem peculiar e sempre muito forte - esse foi o segundo festival que tive oportunidade de conferir - de uma galera que vai para curtir o som, mas também a cultura de pernambuco, que se movimenta por exposições de telas e quadros, por divulgação e venda de LPs durante a festa, de tatoos, comida típica...
Dentre as bandas que tive oportunidade de ver no palco, destaco a River Raid (exatamente o nome do joguinho do Atari que, inclusive, ficava passando nos telões ao lado do palco durante a apresentação da banda pernambucana). De fato, vi guitarras bem pesadas que me lembraram algumas vezes o Arctics Monkeys, mas sem a mesma velocidade, mais cadenciado, mas com uma energia muito boa.
Outra boa banda que vi foi a Plastic Noir, do Ceará. Mas achei a coisa meio soturna, muito fechado o som, sei lá. O vocalista parecia o Nazi, do Ira, mas bem mais carregado.
Vi também se apresentando no palco o Wado, que eu já conhecia de nome e de algumas músicas, mas vi que o cara é realmente muito bom. Apresenta um tipo de som que se pode considerar completamente World Music, motivo pelo qual já foi selecionado em alguns festivais como revelação e já faz sucesso há algum tempo em países da Europa.
3 Na Massa foi também uma grande e ótima surpresa. As cantoras se revezando no palco em uma mistura cheia de suígue, de jazz, blues, misturado com uma batida eletrônica muito legal. Muito som legal que, mesmo sem conhecer, deu vontade de escutar com muita atenção, sobretudo por Marina de La Riva e Nina Becker, que eu já conhecia de outras músicas.
Esperei muito do Instituto Mexicano Del Sonido, mas não gostei muito não. Mistura uma porrada de música dos anos 70 e 80 e achei um pouco forçado o som, misturando esses hits com música latina.
Afrika Bambaataa também achei que seria diferente, mas na cena deles, a coisa do hip-hop é extremamente forte. Fizeram até um remix lá com o Funk brasileiro e mexeram muito com a galera fazendo gritos de guerra com o nome da cidade... "Reciiiiiiiiiiiifeeeee..." aí o povo gostou e entrou meio na do grupo.
O bom mesmo foi ver Fernanda Takai com o Pato Fu.
A banda inteira, que já tem quase 15 anos de estrada mostra uma sintonia no palco que se vê em poucos grupos.
John é o grande maestro da coisa toda, aliás ele produz os discos do Pato Fu já faz algum tempo. Aliás, a apresentação até que fugiu um pouco dos Samplers e da programação eletrônica, muito presente nos discos do grupo Mineiro.
Aliás, Fernanda é um show a parte. Seu jeitinho muito meigo (e agora até meio Senhora), feito um playmobil, fica balançando os bracinhos, fazendo dancinhas de criança, usando orelhinhas de coelho, mas tem uma maturidade vocal absurda, e impressiona a todos quando assume a posição de roqueira pesada, como aconteceu em "Capetão 66.6". É muito legal, pois mostra o quanto ela pode variar com a sua voz, mesmo tão meiga.
Cantaram e embalaram a galera (pouca, prejudicada pela chuva que caiu o final de semana inteiro na cidade - não mais que duas mil pessoas) com seus velhos hits, como 'Perdendo os Dentes", "eu", "antes que seja tarde" e "ando meio desligado" ."Sobre o tempo" encerrou a noite, o show e o festival, que, pelo que vi, se não foi o melhor de público, mas valeu a pena ter acontecido, para manter a tradição de revelar bandas ao cenário nacional e movimentar a cena do rock Pernambucano, que é tão profuso e está sempre na vanguarda.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Farewell, Simply Red!


Esse final de semana fiz um pequeno tour cultural pela cidade do Recife, acompanhado da minha irmã caçula que, quem diria, acabou por me ciceronear durante tal estada.
Na sexta feira, outra das melhores experiências da minha vida no que diz respeito a grandes espetáculos: Simply Red.
Mick Hucknall é o próprio Simply Red, e apesar das entrevistas que deu dizendo que suas idéias criativas para o grupo acabaram, certamente que sua carreira solo não vai demorar a se consolidar, apesar do fato de que o público não desvinculá tão cedo a sua voz de canções que se tornaram rits (sobretudo românticos) como “If you dont know me by now” e “Stars”.
Aliás, fato notado pela minha irmã Yve, ver Mick no palco é a mesma coisa de vê-lo quando eu comprei, em 1996, um disco “the Best of”.
Mas para mim, o melhor disco do grupo é “Blue”, um dos discos que nem foi tão festejado assim, mas que, para mim, demonstra o que o grupo é capaz de representar em termos de sonoridade, indo ao reggae, ao jazz, ao R & B e ao romântico.
Apesar do setlist não ser exatamente aquilo que se poderia obter de uma carreira de 25 anos e muitos sucessos, no sentido de que o público poderia ter visto um show em que todas as músicas, se não fossem cantadas completamente, seriam bem conhecidas, para quem é fã de verdade, o show mostrou, na primeira parte, um Mick completamente no auge de sua potencialidade musical, mas também mostrou o próprio crooner dando créditos aos seus músicos, sobretudo a kenji Suzuki, na guitarra (com solos impressionantes) e Kevin Robinson nos metais (sempre presentes nas músicas do Simply).
Apesar da grande rotatividade dos integrantes (somente o próprio Mick é da formação original), em várias entrevistas, ele mesmo diz que todo o sucesso só foi possível graças, sobretudo, à qualidade dos músicos envolvidos, entre os quais, até teve um brasileiro, entre 88 e 96, Heitor Pereira, na Guitarra.
Somente na segunda parte do show é que o grupo se voltou mais à matar a saudade dos fãs e apontar para o final da carreira do grupo (farewell tour é o nome da turnê).
Nessa segunda metade do show é que se vê um Mick que entra meio comportado em um colete azul sobre uma camisa meio lilás se descabelar, brincar com a platéia, empolgar o público e mostrar o que levou o grupo a ganhar Grammy’s e atingir o topo de Billboard diversas vezes: a energia.
A partir de “Stars”, o grupo começa a enveredar pelo jazz, R & B que, no meu ver, é onde é mais forte. E a partir daí, velhas canções tomam o público para dançar em “Come to my aid”, “Money tôo tight to mention”, mesclada com hits românticos em “Mellow my Mind” e “If you don’t know me by now”, que encerra o show em êxtase.
Eu, de minha parte, senti falta de algumas músicas que, no meu ver, deveriam ter feito parte do setlist, como “Night Nurse”, “Say You Love me”, “The air that I Breath”, “The Right Thig”, “ A new Flame”, e mesmo que seja comercial, não custava nada ter tocado “For You Babies”. Alguém que me via cantar as músicas, já no final do show até me perguntou : “ei, você que é fã, eles não vão tocar for your babies e if you don´t know me by now não?” Na mesma ora ele começou a entoar essa última, mas os bebês não vieram...
É pouco provável que Mick se livre tão cedo de toda a carga que lhe cabe em razão da existência do Simpy Red, suas músicas e seus sucessos marcantes, mas foi realmente muito bom poder fazer parte dessa despedida.
Só para acompanhar, segue o setlist do show.

Out on the Range
Your Mirror
Home Loan Blues
Oh! What a Girl!
Heaven
You Make Me Believe
So Beautiful
Stars
To Be With You
More
Enough
Mellow My Mind
Sad Old Red
Holding Back The Years
Come To My Aid
Fake
Money's Too Tight (To Mention)
Ain't That A Lot Of Love
Sunrise
Something Got Me Started
If You Don't Know Me By Now.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Discos da Minha Vida - Jagged Little Pill - Alanis Morissette


Não me lembro exatamente quando e nem onde, mas um dia desses vi alguma coisa a respeito de uma lista que era proposta por uma pessoa, questionada sobre quais os discos que salvaria se, por um acaso do destino, acontecesse alguma tragédia em que só fosse possível salvar 10 obras.
Algumas revistas especializadas chamam essa seção de “discos da minha vida” ou qualquer coisa que o valha. Então vamos lá.
O primeiro disco que eu salvaria no caso de acontecer o que se prevê no cinema e em algumas previsões menos otimistas em 2012 seria Jagged Little Pill, de Alanis Morissette (1996).
Quem me apresentou ao disco foi Breno, grande amigo e companheiro de inúmeras ocasiões enquanto estudava em João Pessoa, lá na Praça dos Três Poderes.
Esse é um disco que me lembra desse tempo, de coisas boas, mas também é um disco que representa muito, na minha visão, para o Rock n’ Roll contemporâneo.
As letras do disco são resultado de uma compositora (a própria Alanis) cheia de raiva, rancor, ressentimento, desespero que se manifesta nos versos de canções que falam de vingança, de ódio e muita dor, de falta de honestidade, de pressão em todas as formas, da solidão e de amores não correspondidos que sangram em forma de gritos, mas também de perdão, de busca pelo amor próprio e por altruísmo na própria vida.
Alguma vezes tenta avisar como a vida é difícil (e como ela também ensina), como o caminho é longo e algumas vezes tomamos caminhos errados e de como é difícil reencontrar a direção certa (ainda que em cada tropeço e dificuldade possa-se encontrar razão para seguir), o amor verdadeiro, as razões de viver, a honestidade, a felicidade.
Acho que “You Oughta Know” resume bem todas as misturas de sentimento do disco e é uma daquelas músicas que, de uma forma ou outra, todos que a escutam já tiveram vontade de cantá-la gritando para alguém. Confessional, sem dúvida nenhuma, em relação à própria Alanis, que fez do disco uma mensagem. Para mim é a melhor de todas elas.
E isso tudo é feito de maneira tão musicalmente forte que é impossível não escutar todas as faixas, uma após a outra e não achar que havia ali uma clara ligação entre as músicas, como se fosse parte de uma mesma conversa, divididas apenas em assuntos para facilitar a construção do disco.
O disco todo é um grito. Em todas as faixas Alanis vai aos píncaros de sua potência vocal, junto com as guitarras e com uma gaita (tocada por ela mesma) que se encaixa completamente com as suas performances no palco, agindo feito uma louca, girando em círculos, balançando os cabelos, inundada pelos sentimentos das letras e pela densidade do seu som pesado.
Não poderia ser para menos. Foram 6 indicações ao Grammy e a canadense levou 4 deles, inclusive, álbum do ano. Nunca nenhuma cantora feminina vendeu tanto num álbum de estréia e, no Brasil, vendeu 250 mil cópias.
O disco foi lançado na sua forma acústica 10 anos depois de seu lançamento original. Uma Alanis mais comedida no uso da sua voz aparece, ladeada por violões, piano, e por uma bateria que usa quase sempre baquetas de vassoura, cantando as mesmas músicas que a levaram ao topo de todas as paradas internacionais. Dá uma versão musicada para a música “Your House” que aparece quase um minuto depois da última faixa do disco original em forma de poema, só vocal.
Se foi uma jogada de marketing, para dar uma alavancada na sua carreira e na sua música (que ficou até meio experimental por uns discos, andando até pela eletrônica) tudo bem, mas ainda vale a pena – talvez (e sobretudo) para os que acham Jagged Little Pill uma pancada. Mas quem gosta da Alanis escuta só uma vez o acústico e volta a escutar o original, pesado e desesperado. Esse para mim é o espírito do disco e por isso ele é tão bom que valeria salvá-lo de qualquer Armageddon.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Lulu Santos - O melhor Chato da Música Pupular Brasileira

"O cara é um chato, arrogante..." e coisas do gênero são bem comuns quando se fala de Lulu Santos. E ele pode, realmente, até ser mesmo meio chato sim, mas ele pode.
É interessante notar também que a grande maioria das pessoas que dizem isso, ainda possuem referências da chatice dele, e dizem que "na cidade tal ele falou mal do povo, ou disse que a cidade era suja, ou reclamou veementemente do som..."; mas dizem sem muita certeza de quando, como e mesmo onde aconteceu.
É que ele (o Lulu) é assim: parece que o tempo se encarregou de fazer dele um chato de galocha, um sujeito pedante, besta, cheio de si. E o povo alimenta essa idéia, a mídia ajuda e isso tudo cresce.
Ao mesmo tempo ele, utilizando-se da pecha que já lhe cabe, porque incorporou-se à sua personalidade pública, aproveita para dar uma de Paulo Francis (inteligentíssimo, mas de vez em quando dizia cada bobagem...) e vai a um prêmio de música, onde é homenageado da noite, chega ao microfone e diz: "Eu sei que eu mereço...".
Aí, cai na classe das excentricidades permitidas (ou toleradas) por quem já fez de tudo o que quis da vida, da arte e da carreira.
Normalmente, quem espeta o Lulu nunca foi a um show dele. Pois vá e quero ver se não há de dizer que ele pode até ser chato, mas que faz um som como ninguém, isso faz. Merece todo o respeito pelo que já produziu na cultura brasileira e pelo que ainda continua fazendo. Talvez com um pouco menos de afobação (para quê numa altura do campeonato dessa?), mas com uma força ímpar.
Eu fui em um dos shows do Lulu, em que ele, Engenheiros e Cidade Negra, lá no Recife, fizeram um show memorável. Com uma guitarra azul bebê, fazia suas estripolias como se fosse um adolescente, deslizando os dedos na guitarra como quem entra em casa no escuro, de luz apagada e sabe exatamente onde pisar.
Roqueiro de formação, teve aparentemente inspiração nos Beatles, formou banda com Lobão e Ritchie, participou com muito êxito do Rock n' Rio - 85 e disparou, apesar dessa linha, em 1983, seu sucesso incomparável, uma baladinha havaiana, feita quase sem pretensão com um de seus grandes parceiros, Nelson Motta. "Como uma onda" (1983), segundo o próprio Nelson Motta, já pertence ao povo e não mais a ele e ao Lulu.
Foi ao Funk, à música eletrônica (com o ótimo Memê), incorporou elementos do Baião, do Reggae, do Rock ska, do Samba e foi capaz de Rocks melodiosos e suingados, com guitarras ladeadas de saxofones - como em "Dinossauros do Rock", "Areias escaldantes" ou "Lei da Selva"; de melodias lindíssimas em roupagens simples - em "Deusa da Ilusão", "Ela me faz tão bem", "Toda forma de Amor" e "Vale de lágrimas"; e de mensagens positivas em letras que todos cantam - em "Tempos Modernos" e "Tudo Azul" isso só para citar algumas obras de seus discos que, diga-se de passagem, foram produzidos, vários deles, pelo próprio chato.
Teve um período um pouco distante, mas mesmo assim ainda produziu discos que, se não foram vendáveis, eram bons. Anticiclone Tropical, Ligá Lá e Calendário são eles, apesar de Popsambalanço e Mondo Cane não serem exatamente pérolas.
No show que fui, lá para as tantas, ele, de regata, todo suado, começa a entoar "Como uma Onda" e não canta nem uma estrofe sequer da música. Passa a quitarra para as costas, abre os braços, as luzes se acendem e ele fica ali, contemplando o embasbacamento de umas oito ou nove mil pessoas, que cantam sua obra sofregamente, enquanto ele goza de prazer, fazendo ondinhas com as mãos e regendo o coral enlouquecido. Não é pra qualquer um não. Confesso que ainda pensei comigo mesmo, na hora:"Mas que bom filho da Puta!". Mas depois percebi que era só uma das minhas frustrações aflorando em forma de inveja e logo me juntei, quase que imediatamente, à multidão.
No meu carro tenho, original, "Amor à Arte"(1988) onde Lulu Santos e Auxílio Luxuoso tocam sempre. Bruna diz que gosta de "Dinossauros do Rock" (e é realmente ótima) mas o disco vai de "não identificado" à "You've got to Hide Your Love Away", de "Um Certo Alguém" a "Ny Popoya y Papa" e termina numa vinheta inimaginável de Asa Branca instrumental.
Acho que vão continuar a falar desse cinquentão chato que já fez muito pela Música Popular Brasileira. Também acho que ele não vai lá se incomodar muito não.
E acho, também, que sempre que tiver chance, esterei, junto com uma multidão, a cantar as músicas desse pedante.
Mais do que isso, só minha mãe mesmo, que chora ouvindo ele cantar no seu Microsistem nos seus meios-dias de domingo. Ele merece!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Mídia, o Cult, o Kitsch e o Faustão.

Vi Maria Gadú no Faustão e um amigo meu comentou comigo que ela já estava começando a perder o valor, por ter ido num programa que, sem sombra de dúvidas, é um dos piores da TV brasileira.
Quanto ao programa, concordo em número e grau, mas quanto a esse aspecto da popularização da música boa, sempre surgem comentários puritanos sobre isso.
É que existem alguns fãs que acham que o artista (ou suas músicas) não devem se misturar com a mídia massificada, porque isso teria o condão de destruir a boa reputação ou a qualidade do artista.
Falam isso do Killers, depois de “somebody told me”, do Cranberries depois de “Ode to my Family”, do los hermanos depois que teve música incluída no programa “malhação” ou de outras bandas e artistas.
Outro dia perguntaram a Nelson Motta, no programa do Serginho Groisman, qual a música que o remetia a uma coisa boa, ou que lhe lembrava alguma emoção da sua vida e ele, dizendo que advogava em causa própria, disse que a música mais importante era a que ele tinha feito com Lulu Santos, “Como uma onda” e disse que assim pensava porque essa era uma música que, apesar de ter sido feita por ele e pelo Lulu, era uma música que já não pertencia mais aos autores, mas pertencia ao público, porque cada pessoa já tinha tomado para si a música e alguns cantavam quando estavam alegres, outros quando estavam triste e isso era a maior alegria para um compositor: quando a sua música já não lhe pertencia, mas que pertencia a todo o mundo.
Acho que o cantor, compositor, artista musical de maneira geral deseja isso, que sua música transcenda, ultrapasse a sua autoria e seja tomada pelo público. Acho que assim ele sente que cumpriu o seu desiderato - fez sua obra fazer parte da cultura de um povo.
Esse desejo puritano de algumas qualidades de fãs de que o artista fique na penumbra midiática parece ser coisa de quem adora ser “Cult”, alguns até mesmo, "kitsch", porque tem que gostar de coisa estranha, diferente do normal, que gosta de mostrar que conhece e gosta de coisas que poucos conhecem porque não há mídia promovendo a disseminação da música ou do artista.
Aí, na minha modesta opinião, há duas observações a serem feitas. A primeira é que nem todo artista que esta à margem da mídia é bom e nem todo o que está se promovendo pela mídia é ruim. A segunda é que o que importa mesmo é a qualidade da música, sendo o fato de expansão pela mídia de música de qualidade muito positiva.
Quando a música é boa, quando é tomada pelo público realmente, perde a idade e perde até a autoria (quantas vezes já não ouvi alguém dizer que “Vamos Fugir” do Skank (do Gil, na verdade) é muito legal ou que “Além do Horizonte” do Jota Quest parece uma música do Roberto... e isso acontece com o Elvis, com os Beatles, com o Michael e com vários outros que são e serão regravados, remixados, homenageados...)
Por outro lado, isso também é o que faz as músicas de péssima qualidade (com ou sem mídia) terem a duração de um suspiro e serem completamente descartáveis. A utilização desse tipo de música (ligada a temas fúteis, frívolos, apelativos e afins) é sempre passageira, serve a determinadas ocasiões, mas não se integram à bagagem cultural de ninguém.
Por isso, não acho (ao contrário de alguns muitos) que o fato da utilização da mídia de massa tenha o condão, por si só, de deteriorar ou destruir o bom artista ou a boa música. A não ser quando a produção do artista se liga diretamente à prática mercantil da gravadora, distribuidora ou editora (ter que lançar um álbum por ano, por exemplo) ou então quando, depois de atingir um bom patamar na própria mídia, o artista passe e achar que pode fazer qualquer porcaria que será engolido pelo público. Aí é outra coisa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Nova MPB - O reino de Vênus.

Movimento que parece bem destacado no cenário nacional dos últimos cinco anos é o feliz aparecimento de nova onda do que se pode chamar de novíssima MPB.
Marcada, notadamente, do ponto de vista musical por uma influência muito grande do samba, mas também da música lírica, soul, jazz e de uma instrumentalidade incomum e sensível, essas novas características acabam sendo extremamente produtivas para o gênero que se destaca claramente nessa nova fase: o gênero feminino.
Sim! Porque nas minhas parcas audições, não vejo ninguém além de um Diogo Nogueira e Rodrigo Maranhão (este mais conhecido pelas composições) nessa nova fase da MPB.
Note-se, claro, que não considero Zeca Baleiro, Chico César, Moska, Lenine (entre outros) participantes desse movimento, porque já possuem seus lugares que cronologicamente foram ocupados bem antes dessa nova geração, nascida depois da década de 80...
Dessas novas, destaco, porque as mais impressionantes: Maria Gadú, Roberta Sá, Ana Cañas, Mariana Aydar e Céu (a vovó de todas as outras). Não coloco Vanessa da Mata nesse meio porque apesar de gostar, vejo que todas essas que foram citadas aqui são muito mais musicais do que a moça que tem uma mangueira no quintal que, diga-se de passagem, é péssima ao vivo - tenta, aos trancos e barrancos, fazer falsetes e brincar com a voz para tentar fazer disfarçar a grande dificuldade que tem em passar por perto das versões que grava em estúdio.
Das citadas, acho que Maria Gadú impressiona pela precocidade (a bobinha shimbalayê foi feita aos 10) mas também pela pegada forte no violão (em "Laranja" lembra Lenine) e em letras bem mais elaboradas e ricas, como em Dona Cila, Altar Particular ou mesmo em Tudo Diferente. A voz é macia como uma seda e pode transformar uma "Baba baby" em uma canção que você fica pensando onde diabos já escutou tão familiar música (mesmo ficando triste quando descobre...). Mas Bethânia também já cantou "É o amor" e achei lindo, então... tudo vale a pena quando a alma não é pequena, já disse Fernando Pessoa. Não sei se trará Leandro Léo à reboque, mas ele também é muito bom.
Roberta Sá, por seu lado, faz uso impressionante da sua voz, e canta sorrindo, como se nada fizesse. Quando ouvi "samba de um minuto" (de Rodrigo Maranhão), me encantei pela natalense que flutua no palco e de Dorival cantou "Vizinha do Lado" de maneira ímpar e juntou sua facilidade de cantar samba de roda e ritmos de ciranda com as composições de Pedro Luis (como em Girando na Renda) e gravou um cd muito cuidadoso e belo de se ouvir do começo ao fim.
Ana Cañas traz um estilo algumas vezes um pouco mais experimental. Outras é bem Pop, e ainda tem procurado se firmar definitivamente. Acho que a ajuda de Nando Reis, em "Pra você guardei o amor" vem bem a calhar. Certamente Virá com outras tão boas como em "Devolve moço" e "Esconderijo" (que tem um clipe bem legal dirigido por Selton Melo).
Mariana Aydar também vem bem nessa safra. Ouvi-la lembra um pouco de Leila Pinheiro, mas com mais ritmo. Tem o suígue brasileiro, e parece estar bem próximo da Bossa Nova. Mais que as outras que comento aqui. Mas também anda muito muito bem no samba e ainda passa meio pelo xote e baião. Tem alguns vídeos na internet dela junto com Roberta Sá. Ambas são ótimas.
Céu pode ser considerada uma veterana em relação às que aqui citei. Já tem 3 CDs gravados.
Quem está procurando alguma coisa nova na música e escuta "Cangote", "Bubuia", "Comadi", "Lenda" certamente encontra. Escutei Céu pela primeira vez no programa "Tom Brasil" (eu acho) há uns 4 anos, mais ou menos. Se você gosta de música, escute. De todas, também pela experiência, é a mais cheia de Soul e Jazz e faz uso irrepreensível da voz, que não deixaria nada a desejar em nenhum festival mundial.

E onde estão os homens nessa hora é que eu me pergunto...E não que queira que tal onda acabe, pois é muito rica e profusa em talentos, pois elas além de intérpretes (o que era regra num passado recente) também estão se tornando ótimas músicas, compositoras e instrumentistas dedicadas, e aqui citei apenas algumas delas.

É que uma boa voz masculina que entre nessa nova onda também faz falta e só ter um Diogo Nogueira (que não só não nega seu DNA como faz uso dele nos seus discos) é pouco.

Marte, na música, parece ter entrado em eclipse, apagado pelo som de Vênus.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Quem são os Los Hermanos


Primeiro, tenho que pedir vênia ao meu irmão, que certamente escreveria com muito mais prosa, poesia, acerto gramatical e interpretação inter-sub-meta-transcendental sobre o que essa banda foi capaz de fazer no curto espaço de tempo de sua existência (que ninguém sabe se teve fim, realmente).
Pra mim a banda começa com o "Bloco do eu sozinho". Por mais que se diga que uma banda pode (e até deve, em certos casos) mudar de som e de tendência, realmente parece (com raríssimas exceções que mostram que em algum ponto do disco de 1999 já nascia a banda de 2001) que são duas coisas completamente diferentes.
Nem falo do que se fez com Anna Júlia, tocada em todos os barzinhos-batizados-bate-estacas-boates-botecos até a exaustão, afinal, de uma maneira ou de outra, toda banda precisa de uma música para, pelo menos, entrar na mídia (ainda que isso nunca tenha sido o forte da banda mesmo).
Falo sim da própria tendência da banda, que depois de absorver elementos fortíssimos da MPB, da Bossa-Nova e do Samba, aparentemente o hard-core do primeiro disco nunca mais voltou, enquanto que as outras tendências (umas mais, outras menos) continuaram se misturando.
Digo até que algumas letras do primeiro disco talvez coubessem melhor em uma roupagem parecida com o que se viu nos discos seguintes, mas que nunca voltou a ser como o primeiro disco: "Tire esse azedume do meu peito, e com respeito trate a minha dor..." parece estar muito mais próximo de "...veja bem além desses fatos vis, saiba, traições são bem mais sutis. Se eu te troquei, não foi por maldade. Amor, veja bem, arranjei alguém chamado saudade", mas a levada é que parece não se encaixar muito nos versos. Mas tudo bem.
A banda, inclusive por causa do mal-estar causado pela gravadora do primeiro disco - que não queria seu produtor nem suas músicas - no segundo disco, parecia, realmente, que saía feito um pierrot perdido, mas procurando o seu bloco.
A primeira vez que vi Los Hermanos ao vivo foi num festival de verão do recife (quando merecia ser frequentado), em 2004, num dia que, de verão, só mesmo as monções, numa chuva torrencial que caiu e atrasou o começo dos shows em mais de duas horas, quando então entrou um Tony Garrido, pedindo desculpas pelo atraso ao público que já estava completamente encharcado.
Noite maravilhosa, com Alceu, Cidade Negra, Titãs, Skank, Natiruts, Mundo Livre, Cordel de Fogo, Otto.
A banda entrou para tocar às cinco da manhã, o show durou menos de uma hora, mas quando Marcelo Camelo começou a cantar "O Vencedor", a emoção tomou conta de todos, e vi os verdadeiros fãs (eu ainda não era um) emocionados, muitos chorando com as canções que eram executadas. Eu me emocionei com a emoção dos que estavam perto de mim e ficamos, eu e minha irmã, ensopados, mas olhando aquela apresentação que, para mim, foi um marco. De dia, todo molhado, vendo um povo cantar com uma vontade de quem estava pronto para, com a banda, enfrentar outra maratona como a que já tinha passado pela noite (e olha que Otto ainda tocaria depois disso...).
A partir daí, comprei "O bloco" e meu irmão se encarregou de comprar o resto, de tão mais fã que se tornou do que eu.
O certo é que num cenário musical onde proliferam bandas que fazem toda a trilha sonora de programas de fim de tarde (tudo bem, o Los Hermanos também já teve música incluída nesses programas), em que rezamos para que as bandas que são frutos da década de 80 resistam, em que os programas de calouros foram reformados para reality shows (onde nada se cria, tudo se copia - ou se destrói, ou se deturpa), os barbudos aparecem fazendo música de qualidade, com letras difíceis, profundas, com mensagens de amor, de dor, de saudade, de alegria, de vida, de velhice (os asilos, como diz meu irmão) em melodias ricas e que não têm como aparecer nas revistinhas de músicas cifradas.
Aliás, nessa cena (banda, letra, melodia), que ainda persiste, temos pouca coisa acontecendo - a não ser pelo Rappa, Nando Reis, Skank, Orquestra Imperial, Nação Zumbi (que ainda fazem, não vivem do que fizeram), ... Na minha lista, nada mais - E olha que esses aí são meio filhos de rama dos heróis de 80 e poucos. Uns outros são novos demais (Moptop, Vanguart, Mombojo, Little Joy..) e outros, apesar de constituirem um movimento muito bom, são outra coisa (como Móveis Coloniais de Acaju, ou o Teatro Mágico).
E ainda mais! Nessa letargia musical nesse formato, quando se constata a falta de músicos (olhem melhor por trás dessas bandinhas quando elas se apresentam) e de compositores, o Los Hermanos tinha logo dois de expressão maior: Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante.
Juntos, foram capazes de fazer muita música bela, usando de recursos de linguagem difíceis, de trocadilhos simples e ricos, de ênclises, próclises e mesóclises, falando de histórias impossíveis, de amores perdidos, de viagens inimagináveis, de arrependimentos, de saudades, de encontros, de juventude perdida, de traições, de romances, de dor, de despedida, de viradas, de súplicas, de jeito de viver diferente, de simples contemplação do tempo, do só, do calmo, perdido, do perplexo, do calado, do valente.
Talvez por isso, ao sentir que seu bloco já não estava mais tão sozinho, a banda, encontrando o seu caminho, fez dos seus fãs os verdadeiros multiplicadores de suas mensagens, que, para mim, ao contrário daquelas músicas em que nos encontramos e nos identificamos, ficamos é procurando personagens que aparecem nas músicas da banda, nos emocionamos com eles, vivemos com eles as suas Odisséias de minutos e ficamos alegres com sua glória ou choramos as suas dores. Isso é o máximo em Los Hermanos.